quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

1) O que é DNABrasil?

DNABrasil destina-se a apresentar um Brasil visto sob outra ótica que não a das opiniões correntes, ainda que utilizando os fatos rotineiros da vida nacional. Tem a pretensão de decodificar a estrutura da brasilidade em sua essência reprodutiva (daí o nome DNA Brasil), e a missão de servir como suporte crítico e educacional para todas as pessoas empenhadas em interpretar a dinâmica da sociedade brasileira. Seu enfoque é sistêmico e seu interesse reside no dia a dia dos acontecimentos e na lógica entre os fatos e as respostas relacionadas a estruturas dinâmicas que perpetuam seu próprio sistema.

Pretendemos criar uma nova forma de ver os fatos utilizando o legado de alguns poucos estudiosos de nossa nacionalidade, hoje totalmente esquecidos, voluntária ou involuntariamente.

Esta seção surgiu da necessidade de informar brasileiros para entender seu próprio país. Já que não nos entendemos, já que a mentira é tão avassaladora, as mistificações tão nojentas e a confusão tão generalizada, pretendemos sistematizar algumas ideias dispersas e discutí-las com a possibilidade de convergência de opiniões para criar um novo sistema para o Brasil.

É claro que não se quer ser insolente, arrogante ou propor fórmulas violentas com relação ao que vai se demonstrar, afinal, muita coisa aqui tratada você já deve estar cansado de saber. A novidade, neste caso, é o que hoje em dia se chama conectividade, ou que mais genericamente se chama composição dos elementos que formam um sistema.

Nosso foco principal está no entendimento da democracia como um regime de direitos iguais e de autoridade delegada. Ou seja, como um sistema de representação em que a sociedade é soberana, e o Estado dirigido segundo a vontade coletiva dos que estão na sociedade e não no Estado. Este princípio basilar vai orientar toda a questão sistêmica. Não defendemos nenhum sistema que não esteja apoiado na democracia e nas liberdades individuais. Portanto, se você procura outra coisa, não gaste seu tempo, mas também não se precipite: nossa intenção é demonstrar que democracia e liberdade não existem por aqui. É aí que começam as surpresas.


Os 3 sistemas

Como definir um sistema que tem em si mesmo aspectos controversos e assimétricos quanto a sua própria concepção? A única forma de contornar estas dificuldades é apelar para uma simplificação, isto é, reduzir a estrutura social a uma ossatura, e a partir daí colocar sua musculatura somente nos aspectos mais relevantes, deixando a plástica para o futuro.

Assim, a tese inicial é de que o Brasil é constituído por 3 sistemas sociais diferentes, 3 composições básicas que giram em torno das hélices do DNA brasileiro: o subcapitalismo — sistema que abriga os deserdados do Poder; o indefectível semicapitalismo ou mercantilismo — da vida estatal e monopolística, do protecionismo e dos direitos adquiridos; e o capitalismo avançado — sistema social que triunfou em todo o mundo, mas que no Brasil sobrevive encabulado e sem qualquer expressão política mais relevante.

Com isto posto, pergunta-se: que tipos humanos transitam nestes três sistemas sociais? Quem são os brasileiros aí posicionados? Um olhar em nossa literatura permite a extração de suas personagens:

1. O Jeca. Personagem de Lobato que dispensa maiores explicações, o Jeca representa o tipo extraviado do subcapitalismo rural, não apenas como um produto da mestiçagem mas, sobretudo, de um ser desintegrado, atomizado em uma realidade social de renúncia e falta de aspirações.

2. O Mazombo. Personagem de Vianna Moog, entendida pelas seguintes características: "ausência de determinação e satisfação de ser brasileiro, ausência de gosto por qualquer tipo de atividade orgânica, carência de iniciativa e inventividade, falta de crença na possibilidade de aperfeiçoamento moral do homem, descaso por tudo quanto não fosse fortuna rápida e, sobretudo, falta de um ideal coletivo, na quase total ausência de sentimento de pertencer o indivíduo ao lugar e à comunidade em que vivia".

3. O Salamalequeiro. Tipo encontrado em repartições públicas, em nível hierárquico bem baixo. Em geral é um mulato que usa as exasperações para chamar atenção sobre si mesmo, quando não para o relacionamento interpessoal. Outras vezes é apenas um impostor de afetos, um maneirista descomedido, um porra-louca histérico. Dizia Euclides da Cunha que o sertanejo era sobretudo um forte porque se diferenciava do "raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral".

4. O Pavão. Personagem quase exclusivamente político — brasileiro que sabe que o dinheiro sai do despacho, das influências, das mamatas, do faz de conta, das grandes negociatas. Sua ética é a do oba-oba, seu ego o da ostentação. Tem apenas um monomodo de se apresentar: com afagos, cordialidade efusiva e oba-oba ufanista.

5. O Sofrenildo. Figura brasileiríssima, inventada pelo humorista gaúcho Sampaulo, e muito popular nos anos 70. O dar errado, como estigma da vida social, não pode ser lançado simplesmente na conta do azar, mas à falta de sorte e ao negativismo, numa espécie de panglosismo ao contrário. É um dos DNAs do sistema humano brasileiro.

6. O Mala-sem-alça. Dispensa maiores explicações — está em todas as partes e, às vezes, traduz-se numa atitude provisória e não em personagem permanente. Pais que não educam seus filhos para uma profissão, que não os forçam a atitudes de engajamento frente à vida, são incentivadores de malas de todos os calibres. É o mazombo na juventude.

7. O Pagador de Promessas. Velho conhecido nosso do filme de Anselmo Duarte, o pagador de promessas é o renunciador em marcha pelas bibocas, com uma cruz nas costas pagando promessa a Santa Bárbara, por ter salvo seu burro agonizante de um raio. Para encontrar este tipo brasileiríssmo, basta observar as romarias que ocorrem anualmente no país. Sem muito esforço, lá se encontra o pagador de promessas, se arrastando de joelhos, carregando o andor, andando descalço, sacrificando-se por uma promessa de cura, ou por uma graça já alcançada. Com isso, demonstra sua incapacidade de acreditar numa cura espontânea.

8. O Sarambé. Mencionado por Lobato, em uma carta a seu amigo Godofredo Rangel, quando vivendo em NYork, a propósito de uma pergunta sobre a participação da Miss Brasil em um concurso em Galvestone. A notícia correu o Brasil como um feito extraordinário. Lobato disse que nenhum jornal de NY comentara uma linha sequer sobre o fato, pois a Miss Brasil teria se classificado em 11o lugar. E comenta também o fato de que um professor brasileiro teria sido recebido em um jantar espetaculoso em uma recepção de cientistas em Chicago. Lobato diz que foi falar com um jornalista, por acaso no mesmo andar onde trabalhava — "Mas você não acha que um jantar de 400 talheres é muito para uma recepção de cientistas? — Qual o que, disse o jornalista, vou botar 500 talheres". E sob a pergunta de que poderiam desconfiar do exagero, o jornalista foi peremptório: "que nada, aquilo lá é um povo de sarambés".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não é permitido linguagem abusiva, de cunho racista ou pornográfica e ofensas pessoais.